Navegar é um ato de paciência, e existem decisões que só devem ser tomadas na hora certa. (Amyr Klink)
Pina, 15 de maio a 13 de junho de 2010.
Amanheci na areia, sol nascendo, brisa lavando o rosto, andei escrevendo para o cesto de lixo, ainda o melhor amigo do escritor perdido nos dias em que o propósito se esvai (como o destino), hoje a vida retoma a simplicidade e a quietude retorna como um bom sinal.
Tenho lido o Amyr Klink, o último foi Cem dias entre céu e mar, relato sobre a travessia do Atlântico, da Namíbia à Bahia, em um barco a remos, o planejamento da viagem, o cotidiano solitário e imprevisível, as dificuldades, as alegrias, à época Amyr vivia sozinho, meados da década de 1980, circunstância que me aproxima à obra (palpite), aquele é seu primeiro livro, mas o segundo que li, antes foi Linha d’água, um de seus últimos, sobre a construção do veleiro oceânico Paratii-2 e também, senão principalmente, sobre a importância decisiva das suas meninas, o casamento com Marina e os nascimentos e primeiros anos de suas três filhas, o primeiro livro é um relato sobre coragem e determinação, o segundo é um elogio ao amor.
Penso na vida dos velejadores, trocando o porto pelos ventos e endereçando as dificuldades com disciplina e trabalho em desacato à conveniência, parece que velejar exige mais determinação que fé, oposto à metáfora platônica para a metafísica, a segunda navegação do homem que pensa com remos quando rareiam os ventos da certeza, como quem faz do além-mar um além-mundo, pois que não venta o tempo inteiro, daí que o sono pacífico na rede em uma tarde quente e o desatino inconsequente de um amor furioso sejam oscilações entre calmaria e tempestade que às vezes podemos prever, mas cujas sensações e consequências não se pode antecipar, por sorte os eventos que nos causam medo produzem, também, esperança.

Atender ao chamado do mar implica aceitar essas tempestades associadas à destruição, ao desarranjo, ao final, nem sempre associamos as tempestades à renovação e, no entanto, todo fim enseja o início de outro momento, de outra fase, de outra vida, frase do Amyr no mesmo amanhecer na areia traz esse sentido:
Nada era mais útil do que uma tempestade favorável ou mais tranquilizador do que o fim de uma calmaria.
É como nos afastarmos daqueles que amamos quando o amor se modifica, ou por causa disso, esta é coragem de uns raros, embora a permanência no cais, segurança dos covardes, não seja risco menor do que partir, “quando não se tem um rumo definido é muito fácil perder horas, dias ou anos, sem dar-se conta disso” e nada temos além de tempo.
Há quem dedique a vida inteira a consertar o que não tem solução, Sísifo a lapidar a pedra que o condena, fatos são marcos de nosso movimento, definem nossa história, mas é nossa fé num sentido comum que orienta o futuro, ou não há futuro, todos os passos são definitivos num jardim de caminhos que se bifurcam porque o retorno é impossível, a vida segue e o passo de volta é já um novo passo.
O momento é de calmaria após uma tempestade favorável, o tempo que adoça a memória fortalece as escolhas e não há engano que resista quando parâmetros são deslocados e expectativas superadas, é o que os ingleses dizem com a expressão “raise the bar” essa sensação de que a partir dos eventos importantes só cabe avançar e crescer.
É preciso ser grato a cada tempestade favorável, aos que surgem como gatilhos de nossas pulsões, pois do amor à vida que gente assim nos desperta é que definimos nosso rumo, ora na transição do navegante solitário para o homem de família que segue com liberdade e respeito, disposto a navegar “cumprindo uma obra de paciência e disciplina”, talvez seja isto a esperança, partir ostentando um lema simples: “decidir sem medo de errar”, enganos há, mas não duram, pois ventos fortes assustam, mas não paralisam o homem paciente, que persevera atento enquanto a calmaria revela os destinos ocultos pela tempestade.

Notas: escrevi cantarolando essa música, de Ben Harper, as citações são de Amyr Klink, Cem dias entre céu e mar, p. 118-119, que terminei de ler no intervalo desta crônica, as imagens são do Flickr, aqui e aqui, continuo encabulado quando escrevo assim, mas escrevo.
13.06.2010 – 10:43 -