Prolegômenos – Parte 3/4
Joguei a isca, agora vou direto ao ponto: é você quem dá forma ao mundo e não o contrário.

Miguel de Cervantes escreveu Don Quijote de La Mancha para criticar os exageros do ilusório no imaginário espanhol. Contemporâneo de Descartes e Galileu, seu tempo era o da paixão pelo conhecimento que fertilizava a Europa. Os romances de cavalaria eram caricaturas de um mundo arcaico, perdido em ilusões e aspirações da grandeza vazia da tradição, mas Cervantes desenhou tão bem sua caricatura que a imagem do sonhador errante e pouco destro assumiu não apenas os desejos inertes do povo espanhol, mas dominou o imaginário de várias gerações de sonhadores que, não satisfeitos com a vida cientificista, entre esquadros, buscam outro mundo.
No ensaio “L’heritage décrié de Cervantes”, presente na coletânea L’art du roman, o escritor Milan Kundera atesta essa capacidade do romance cervantino de recuperar uma natureza humana ofuscada, abafada pela racionalidade européia. Há outros exemplos. Gustave Flaubert descreveu tão bem o romantismo inconsequente de Emma Bovary que produziu um avatar para gerações inteiras de mocinhas pudicas (e outras nem tanto), exemplo utilizado por Freud em considerações sobre a histeria. Ivan Karamázov assumiu a representação afetiva dos leitores de um mundo em busca de maiores liberdades civis quando o propósito de Dostoiévski era enaltecer a tradição cristã na figura casta e ingênua de Alíocha. O excerto “O grande inquisidor” e o ridículo funeral do stáriets Zózima são os trechos mais conhecidos da obra.
Foi preciso a psicanálise para demonstrar que a todo raciocínio corresponde um afeto, mas desde o Quixote está claro que o mundo apenas racional não existe e, se assim o fosse, outro mundo seria inventado. A depender de nosso amor pela fantasia, a razão pode ser suprimida até quase sumir. Num contexto assim, importa pouco se estamos ou não certos (voltarei a esse tema, de que a certeza é fruto de consenso e não um dado a priori), mais importante é perceber que os afetos guiam nossas escolhas e podem orientar nosso sucesso ou nossa ruína.
A pessoa com medo decide em função do quanto pode se prejudicar. Um passado doloroso, uma vida doentia, problemas pendentes e não resolvidos, metas difíceis de alcançar, amor próprio em frangalhos, o medo como tempero e veneno de seu trabalho, de seus relacionamentos, de seu humor, de seu amor. Não vê esperança, não vê saída, não perdoa ninguém nem perdoa a si mesma, apenas o medo insuportável e intransigente dança no salão. Você reconhece facilmente pessoas assim, são aquelas que se recusam a sonhar por mais de alguns minutos, como o Coelho Branco que vive num mundo de fantasia mas não faz outra coisa além de olhar o relógio e reclamar sua vida em atraso.
O protagonista de Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez, reconhece em sua obsessão pela ordem e pelo controle as compensações para a desordem de seu espírito, um mundo à parte que construiu para se esconder e de onde foge ao longo da narrativa através da criação de um outro sonho, mais livre. Não é casual a inspiração de Gabo na obra A casa das belas adormecidas, de Yasunari Kawabata, escritor japonês capaz de fazer do texto um desenho de cenários abertos e inconclusos, que nos convidam a criar também. Reconstruir o mundo é a sina de todo sonhador, com sorte um mundo mais colorido e aberto, mais adequado às flores que aos espinhos, um mundo inexato, pois sonhadores exatos, e medrosos, não raro calham ser os piores tiranos.
Agora pense nos quixotescos, como eu. Não somos sempre brincalhões ou risonhos, temos dias difíceis, temos receio de escolhas erradas, temos pressa também, somos coelhos de Alice muitas vezes, mas em tudo paira uma espécie de segurança que não se consegue explicar. É a segurança da busca, da sede. Gostar mais da flecha que do alvo é nosso princípio. Ser flecha e não alvo é nossa natureza. Erramos muito, erramos demais, mas nosso “errar” não é só o da falha, da incompetência, é também o errar do errante, de quem busca a esmo, à deriva, mas busca sempre. O quixotesco nem sempre acerta, mas quando acerta o faz melhor que os outros. “Les temps sont durs pour les rêveurs”, nem por isso nossa vida é ruim.
Não há copo sem observador porque o todo é maior do que as partes, o copo é mais do que o vidro porque é você quem vê um copo, ou dois, ou nenhum. Em cada um de nós existe um lugar, no espaço e no tempo, que desperta ou acolhe essa criação de sentido. Um lugar que já recebeu muitos nomes. Já foi khora (Platão), inefável (Plotino), númeno (Kant), negativo (Hegel), falta (Freud/Lacan), vazio originário (Heidegger), nada (Sartre), a lista é longa. Os colegas de filosofia estão querendo me matar, agora, mas devem entender que não estou alinhando conceitos diferentes (igualar a khora ao negativo ou ao vazio originário seria, no mínimo, ridículo), mas falando de um modo de ser em relação ao que falta. Seja pelo atendimento ao desejo, seja por um movimento do Espírito em direção ao Absoluto, seja por uma necessidade inevitável de construir sentido, existe em nós um modo de ser que nos projeta para algo que ainda não é, uma disposição à criatividade.
Criar é inevitável, para o bem e para o mal. Se há um lugar, há criação. Assuma seu lugar. Aproprie-se dele. É você quem dá forma ao mundo e não o contrário. Mantenha sua integridade. Reconheça o valor de suas escolhas, de seus “erros” e “acertos”, e assuma sua existência, não tanto para guiá-la ordenadamente e acertar sempre o alvo, acertar é importante, mas viver é mais que acertar, é estar disposto a cruzar o tempo e cortar o espaço durante o voo em que se resume a vida curta da flecha.

Imagens:
“Don Quijote”, Jules David, 1888
“FEAR II”, Mentos18
“Arrows”, M i x y