o mar

Prolegômenos – Parte 4/4 (final)

Matuto pernambucano,
semelhante ao Quixote no perfil esquálido,
no gosto pelas paixões insolúveis,
no jeito de anti-herói desengonçado.

Antídotos. Que tal?
Maior que o sucesso fácil, o trabalho duro.
Maior que a história inconclusa, o presente concreto.
Maior que os dilemas de muitos, as certezas aos poucos.
Maior que a cinza da quaresma, o carnaval sem quarta-feira.
Maior que a tal paixonite, a simplicidade envolvente do amor.

Ela é assim,
entrelaçar de infinitos na linha do horizonte,
manhã de domingo,
céu azul,
dia de sol,
areia e maresia,
sono pesado,
rosto envergonhado,
bochechas marcadas,
amor de meio-dia,
beijo de boa noite,
três pontos num lá e lô,
açaí na tigela,
tapioca fininha,
forró devagarzinho, ajeitadinho,
brega descendo até o chão,
Sublime com Dave Mathews,
“toca Raul”,
“TOCA SLAYER!”,
presilhas para os cabelos,
sandálias e chinelos,
ciúmes bobos,
vestidinhos,
air bags, câmbio automático,
amarelo-ovo,
missô com cebolinho,
cumbuquinha de arroz,
curva dentro do ponto,
reclamação de vizinho,
sinal fechado,
sofá aberto,
banho ligeiro,
barbeador cauteloso,
chuva pesada,
portão de garagem,
recado no mural,
família risonha,
ponto com nó,
mente sã,
corpo são,
paciência,
seis horas,
sertão,
que mora longe,
mas vive junto,
cada vez mais junto,
pois ela é meu lugar.

Se hoje navego, é nela o mar.

- Um comentário.

 

 

Tempestades favoráveis

Navegar é um ato de paciência, e existem decisões que só devem ser tomadas na hora certa. (Amyr Klink)

Pina, 15 de maio a 13 de junho de 2010.

Amanheci na areia, sol nascendo, brisa lavando o rosto, andei escrevendo para o cesto de lixo, ainda o melhor amigo do escritor perdido nos dias em que o propósito se esvai (como o destino), hoje a vida retoma a simplicidade e a quietude retorna como um bom sinal.

Tenho lido o Amyr Klink, o último foi Cem dias entre céu e mar, relato sobre a travessia do Atlântico, da Namíbia à Bahia, em um barco a remos, o planejamento da viagem, o cotidiano solitário e imprevisível, as dificuldades, as alegrias, à época Amyr vivia sozinho, meados da década de 1980, circunstância que me aproxima à obra (palpite), aquele é seu primeiro livro, mas o segundo que li, antes foi Linha d’água, um de seus últimos, sobre a construção do veleiro oceânico Paratii-2 e também, senão principalmente, sobre a importância decisiva das suas meninas, o casamento com Marina e os nascimentos e primeiros anos de suas três filhas, o primeiro livro é um relato sobre coragem e determinação, o segundo é um elogio ao amor.

Penso na vida dos velejadores, trocando o porto pelos ventos e endereçando as dificuldades com disciplina e trabalho em desacato à conveniência, parece que velejar exige mais determinação que fé, oposto à metáfora platônica para a metafísica, a segunda navegação do homem que pensa com remos quando rareiam os ventos da certeza, como quem faz do além-mar um além-mundo, pois que não venta o tempo inteiro, daí que o sono pacífico na rede em uma tarde quente e o desatino inconsequente de um amor furioso sejam oscilações entre calmaria e tempestade que às vezes podemos prever, mas cujas sensações e consequências não se pode antecipar, por sorte os eventos que nos causam medo produzem, também, esperança.

Atender ao chamado do mar implica aceitar essas tempestades associadas à destruição, ao desarranjo, ao final, nem sempre associamos as tempestades à renovação e, no entanto, todo fim enseja o início de outro momento, de outra fase, de outra vida, frase do Amyr no mesmo amanhecer na areia traz esse sentido:

Nada era mais útil do que uma tempestade favorável ou mais tranquilizador do que o fim de uma calmaria.

É como nos afastarmos daqueles que amamos quando o amor se modifica, ou por causa disso, esta é coragem de uns raros, embora a permanência no cais, segurança dos covardes, não seja risco menor do que partir, “quando não se tem um rumo definido é muito fácil perder horas, dias ou anos, sem dar-se conta disso” e nada temos além de tempo.

Há quem dedique a vida inteira a consertar o que não tem solução, Sísifo a lapidar a pedra que o condena, fatos são marcos de nosso movimento, definem nossa história, mas é nossa fé num sentido comum que orienta o futuro, ou não há futuro, todos os passos são definitivos num jardim de caminhos que se bifurcam porque o retorno é impossível, a vida segue e o passo de volta é já um novo passo.

O momento é de calmaria após uma tempestade favorável, o tempo que adoça a memória fortalece as escolhas e não há engano que resista quando parâmetros são deslocados e expectativas superadas, é o que os ingleses dizem com a expressão “raise the bar” essa sensação de que a partir dos eventos importantes só cabe avançar e crescer.

É preciso ser grato a cada tempestade favorável, aos que surgem como gatilhos de nossas pulsões, pois do amor à vida que gente assim nos desperta é que definimos nosso rumo, ora na transição do navegante solitário para o homem de família que segue com liberdade e respeito, disposto a navegar “cumprindo uma obra de paciência e disciplina”, talvez seja isto a esperança, partir ostentando um lema simples: “decidir sem medo de errar”, enganos há, mas não duram, pois ventos fortes assustam, mas não paralisam o homem paciente, que persevera atento enquanto a calmaria revela os destinos ocultos pela tempestade.

Notas: escrevi cantarolando essa música, de Ben Harper, as citações são de Amyr Klink, Cem dias entre céu e mar, p. 118-119, que terminei de ler no intervalo desta crônica, as imagens são do Flickr, aqui e aqui, continuo encabulado quando escrevo assim, mas escrevo.

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Sazonalidade

O blog abre e fecha, muda de layout, é chato, eu sei, mas ninguém deseja mais do que eu o fim dessa fase. Ao menos algumas mudanças já tomam corpo.

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Calar

Paulo queima livros em Éfeso, Hitler queima livros em Berlim e você percebe que não são coisas tão diferentes, mas o mesmo erro, calar a voz alheia em prol de um “bem maior”…
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Namorando

pois é, eu e “A Tal” finalmente acertamos os ponteiros.

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Fim do Cordel, alforria de Lirinha

O encerramento do Cordel do Fogo Encantado pode representar o impulso extra para a carreira teatral de Lirinha.

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dos amigos #38

“Para nós, os antigos amigos são a recordação de um fracasso em que também participámos. Por isso hesitamos tanto na distribuição de culpas.”

Pedro Lomba

fonte: Criativemo-nos (Margarida Pereira)

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Feliz Ano Novo!

O ano novo começou há tempos, pra mim começou desde outubro, pelo menos, mas só tomou jeito quando veio o carnaval.

A folia passou, mas o carnaval como estado de espírito ainda está longe de acabar aqui em casa.

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seu lugar

Prolegômenos – Parte 3/4

Joguei a isca, agora vou direto ao ponto: é você quem dá forma ao mundo e não o contrário.

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Seja gentil neste carnaval

Há quem entre na folia pra brincar.
Há quem entre na folia pra purgar as dores.
Carnaval não é para dores.
Carnaval é para amores!
Se não é de brincar, aproveite e descanse.
Pulando na rua ou debruçado na escrivaninha, lembre que o carnaval sempre volta.
É sempre tempo.
Seja sadio.
Seja paciente.
Seja bondoso.
Seja gentil.
Com os outros também.
Antes, no entanto, seja gentil consigo mesmo.
Cante bonito a marcha do seu bloco que a turma acompanha.
Por quê?
Ora!
Porque…

José Datrino, o Profeta Gentileza

gravura: José Datrino, o "Profeta Gentileza"

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